Devolva o constrangimento
Sobre o limite de não aceitar que definam quem você é, no seu tempo e do seu jeito.
Todo início de ano, somos convidados a projetar novas versões de nós mesmos. No entanto, para 2026, minha meta não é adquirir algo novo, mas sim devolver o que nunca me pertenceu. Analisando as interações do meu dia a dia, percebi que preciso aprender a devolver o constrangimento. Essa necessidade nasce de um padrão exaustivo: o de priorizar o conforto alheio deixando de lado minha própria dignidade. Quando silenciamos para não deixar o outro desconfortável, acabamos por validar o direito de nos tratarem como convém, permitindo que nossa inteligência e tempo sejam subestimados.
Essa percepção ficou clara em uma conversa com minha psicóloga, onde desabafei sobre como me irrita ser apressada ou ter minha capacidade medida pelo cronômetro alheio. Recentemente, ao ouvir a frase “Achei que você era mais inteligente” após levar o meu tempo em uma tarefa, senti o peso de uma expectativa que não era minha. Por que permitimos que a rapidez seja o único termômetro da competência? Existe uma sabedoria no cálculo leve, no fazer com presença, que a pressa ignora. Minha psicóloga foi precisa: todos temos vocações naturais e outras que exigem um esforço contínuo. Ninguém é mestre em tudo, e reconhecer isso é o autoconhecimento que nos liberta da performance constante.
Essa busca por perfeição e a aceitação do julgamento alheio sempre me fazem lembrar das palavras de Brené Brown no livro A Coragem de ser Imperfeito:
“A vulnerabilidade não é conhecer a vitória ou a derrota; é compreender que ambas são necessárias. É se envolver. É estar presente por inteiro.”
Ao tentarmos evitar o constrangimento de não sermos “rápidos o suficiente” ou “inteligentes o bastante” aos olhos dos outros, abandonamos a nossa presença real para vestir uma máscara de produtividade. Devolver o constrangimento, portanto, não é um ato de grosseria ou arrogância, mas um ato de presença. É o posicionamento de quem entende que, se alguém proferiu uma frase indelicada ou uma inverdade sobre sua identidade, o desconforto gerado pela resposta assertiva pertence a quem falou, não a quem ouviu.
O constrangimento surge quando dialogamos com a verdade. Quando você responde ao que não te define, você quebra o ciclo de projeções. Quem tenta te diminuir raramente espera que você tenha consciência suficiente para se posicionar. Por isso, não é necessário gritar ou “devolver na mesma moeda”. A elegância da defesa está em apenas não aceitar o rótulo. É dizer, com a calma de quem se conhece: “Isso que você disse não me pertence”.
Em última análise, devolver o constrangimento é um exercício diário de gentileza consigo mesma. É blindar a saúde mental e emocional, descartando as inverdades “cuspidas” por quem desconhece a sua jornada. Antes que qualquer pessoa ouse dizer quem você é, certifique-se de que você já sabe. Afinal, a maior proteção que podemos construir em 2026 é a de sermos as únicas autoridades sobre a nossa própria história, pois ninguém tem o poder de nos definir.


Queria deixar aquela figurinha: “EU AMO SER SUA AMIGA”. É isso! Ainda citou Brené Brown 😭🫵🏼🗣️. Tenho tentado colocar isso em prática também, amigona